O drama hipster das Barbearias Trendy

Esta malta gosta de ser tão moderna e cosmopolita que acaba por ser mais patética que um pacóvio analfabeto.

Uma piada de mau gosto tornou-se de um caso de polícia, se ainda não o é não falta muito, tudo devido a uma piada de mau gosto, e à preferência que a malta tem por termos estrangeiros, começa nos nomes e passa pelas terminologias.

Comecemos pela piada de mau gosto, chauvinista e claramente provocadora:

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Tradução: Eu posso entrar…eu também. Eu não posso.

Este cartaz poderia induzir-nos em erro e levar-nos a pensar que estávamos a falar de uma situação em qualquer país anglófono, mas não é um cartaz “português” que a malta cá gosta muito de usar o inglês, é mais cosmopolita e cool.

O cartaz é uma piada machista, chauvinista e de mau gosto. Basicamente diz que os cães podem entrar e as mulheres não, isto é ofensivo. Usar um cartaz destes como imagem de marca é no mínimo uma atitude de mau gosto. Agora o mau gosto não é crime, do mesmo modo que o conceito do estabelecimento onde surge não é crime.

É que a Figaro´s Barbershop, se tivesse um nome em português até era um conceito fácil de explicar: A Barbearia Figaro é um barbearia, ou seja uma coisa de homens, como os cabeleireiro eram uma coisa de mulheres até alguém descobrir que serem unisexo era mais rentável.

Lição breve de história, com base na memória!

Antigamente existiam barbearias para servir os homens, existiam cabeleireiros para servir as mulheres. São dois serviços para dois segmentos de mercado, e que requerem equipamentos diferentes: é que por muito que a malta fala de igualdade a verdade é que com algumas excepções, as mulheres não precisam de aparar a barba e os homens não usam cabelo comprido, que requer outros tipos de cuidados.

Mas enfim, as coisas mudaram, porque um cabeleireiro unisexo rende mais que uma barbearia, em particular quando não existe muita gente que use barba comprida!

Uma barbershop, termo inglês que significa barbearia e cuja tradução é literalmente: loja de barbas, não é um conceito inovador, é tão velho como os homens terem barba! Mas isto em inglês soa melhor. Agora existe um problema real: aquele cartaz é uma piada de mau gosto, mas o mau gosto não é crime do mesmo modo que não é crime abrir um estabelecimento dirigido a um público alvo: neste caso os homens.

A coisa descambou por causa de uma questão simples: uma piada de mau gosto, e a “interdição” de entrada de membros do sexo feminino, um interdição que que serve para criar uma imagem de marca que faz pouco sentido, o malta é que um barbearia é mesmo só para homens e mesmo assim só para alguns, é que os que têm cabelo cumprido, se calhar ficam melhor servidos num cabeleiro unisexo. As únicas mulheres ainda poderiam utilizar os serviços seriam as que usam cabelo curto, mas mesmo assim… enfim.

Isto é para ser moderno, por isso fazemos uma barbershop, soa melhor que barbearia, e usa-se um cartaz com uma piada de mau gosto e claramente provocador, mas bastante eficaz: tornou a barbearia do Figaro famosa em Portugal inteiro.

Aparentemente o maior problema de discriminação das mulheres, de desigualdade entre os sexos nos direitos e salários entre homens e mulheres em Portugal resume-se a um simples facto: as mulheres não podem entrar na Barbearia do Figaro. A gravidade desse caso exige uma resposta à altura, e nada melhor que uma performance, um termo inglês que significa actuação ou, se preferirem, encenação.

Foi no passado sábado, pelas 18.00: um grupo de cerca de 15 pessoas, na sua maioria mulheres, com as faces cobertas por máscaras e capuzes, irrompeu pela Figaro’s Barbershop, na baixa lisboeta, num protesto contra a política da barbearia que veda a entrada a mulheres.

Ainda estou para perceber bem qual foi o objectivo desta performance que, neste caso, tem mais de demonstração política do que de encenação artística. Afinal o que é que a malta pretende: que a Barbearia deixe entrar mulheres ou que passe a ser unisexo? Que retire o cartaz? Fazer barulho? Encerrar o estabelecimento?

Um produto para um nicho

Ninguém é obrigado a ter um negócio direccionado a um público alvo, e uma especialização num nicho de mercado é a algo usual hoje em dia. Contudo, parece que o conceito de barbearia é algo de discussão fundamental. Por entre estrangeirismo de barbershop, performance, hipsters-trendy e “ismos” de feminismo, machismo, chauvinismo, fascismo e outros, fala-se de coisas que são relevantes sobre algo irrelevante, e no fim do dia quando surgir outro tema, nada do fundamental irá se alterar.

É que no fim do dia, o melhor que irá acontecer é a Barbearia do Figaro tirar o cartaz e permitir que as mulheres entrem. Se o direito de admissão é discutível, o direito de direccionar um produto a um mercado não o é. E no fim do dia, essa é a real proibição de entrada que existe em qualquer estabelecimento.

Desde que o primeiro Vivafit abriu, em 2003, Pedro Ruiz diz nunca ter recebido uma queixa. “É a mesma coisa que ir a um cabeleireiro para mulheres. Não se trata de discriminação. Se um homem entrar, como os maridos fazem, não há problema nenhum. Muitas vezes são eles que não se sentem à vontade e que se vão embora. Percebem que estão a mais”.

Pedro Ruiz é o CEO e fundador da cadeia de ginásio Vivafit, outro dos casos de um estabelecimento que explora um nicho de mercado com base no género, neste caso os ginásios para mulheres.

Se as pessoas deixassem de confundir direitos iguais com ser iguais, o mundo poderia ser um lugar melhor. Se as pessoas não tivessem tanta necessidade de ser moderna e cosmopolitas, se calhar alguns conceitos, como um barbearia, não causariam tanta confusão!

Já agora, deixem-me salientar que para mim as barbearias e cabeleireiros serem unisexo ou não é completamente irrelevante, à mais de um década que rapo o cabelo em casa e não vou a barbeiros ou cabeleireiros!

 Actulização: O /r/portugal tem uma discussão interessante sobre o assunto, onde estão incluídas algumas pérolas de humor.

Hipsters vs hipsters.
Haja paciência para estes pintas.

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